domingo, 3 de julho de 2011

A partir de agora tudo será diferente...


Houve uma altura na minha vida, já nem me lembro bem quando, em que comprei uma bicicleta de dois lugares. Era linda… À frente um guiador fantástico, os travões, uma campainha, as mudanças… Uns pedais que se ajustavam na perfeição ao pé e uns rolamentos que pareciam manteiga… Atrás, uma outra espécie de guiador, mas que não “guiava”, claro, nem tinha travões, nem mudanças nem campainha. Era apenas um apoio para as mãos de quem fosse atrás. Mas tinha uns pedais e uns rolamentos iguais…

Montei-me nela e comecei a pedalar contente com a novidade da minha bicicleta. Passei pelo lugar do costume e encontrei-me com o amigo que me tinha feito comprá-la. Parei, pus o pé no chão e dei um “trim-trim” valente. Logo ele apareceu à janela, desviando a cortina com a mão, e riu-se de alegria e espanto com a minha surpresa. Saiu, abraçamo-nos e disse-lhe: “Senta-te aí atrás! Esse lugar é para ti. A partir de agora pedalamos sempre juntos!. Ele, de mochila às costas, como quem estava disposto a nunca mais me deixar, sentou-se no banco livre da minha bicicleta num pulo. “A partir de agora tudo será diferente!”, foi o que eu disse, confiante e triunfante, ao mesmo tempo em que dava a primeira pedalada e tirava o pé do chão.

Dirigi-me aos caminhos por onde costumava andar antes e mostrei-os todos a Jesus, montado no banco de trás da minha bicicleta. Sentia que ele estava encantado com os caminhos por onde andávamos, “os meus caminhos”, assim lhes chamava eu, e sorria a cada novidade. Mas, ao mesmo tempo, parecia que “os meus caminhos” não eram novos para ele, como quem também já os tivesse percorrido…

As minhas mãos manejavam o guiador e conduziam-nos por todos os atalhos que eu conhecia bem desde a infância, caminhos que percorrera sozinho na minha bicicleta antiga mais de mil vezes! Pedalávamos contentes, ao mesmo tempo, e sentíamo-nos verdadeiramente felizes! De repente, serpenteando pelos “meus caminhos”, Jesus começou a largar uma das mãos do seu suporte atrás de mim para me apontar veredas e ruelas que eu nunca tinha visto que estavam lá… Primeiro uma, depois outra… Ia-me apontando caminhos novos dentro dos “meus caminhos” que eu nunca reconhecera… Andamos nisto muito tempo… Entre a surpresa e a alegria, andamos nisto muito tempo…

E houve uma altura na nossa vida, já nem me lembro bem quando, em que ele pediu que parássemos. Perguntei-lhe se estava cansado, e ele disse que não. Enquanto pedalávamos, por uns momentos mais devagar, ele disse-me por cima do ombro que era bom pararmos um bocado para pensarmos juntos onde havíamos de ir a seguir. Sorri-lhe… Seria mesmo preciso?! Olhei para trás de relance e vi no seu rosto que sim. Tínhamos aprendido a conhecer-nos, e percebi que ele tinha coisas escondidas para me dizer…

Percebi depois. Queria dizer-me que havia mais caminhos para além dos “meus caminhos”. Paramos à sombra de uma árvore, num planalto já muito sereno e verde, e fechamos ambos um pouco os olhos, como que limitando-nos a respirar fundo. Quando, passado um pouco, lhe disse “Vamos continuar!”, fez-me um pedido inesperado: “Deixa-me ir à frente!” Aquele “Deixa-me ir à frente” ecoou dentro de mim durante uma eternidade… Não era aquilo que eu tinha projetado quando comprei a bicicleta de dois lugares… Era suposto ser eu a ter nas mãos o guiador… “Porquê?!”, perguntei-lhe eu… E ele sorriu e ficou só a olhar-me. Nos seus olhos vi refletida num instante a História de Amizade que já tínhamos construído. Nunca me dera motivos para não confiar nele… Meio a medo, mas com um entusiasmo diferente do primeiro, lá me sentei no banco de trás da minha bicicleta… Ele sentou-se à frente, pôs o pé no pedal e, antes de arrancar, olhou para trás, piscou o olho e repetiu o que eu tinha dito na nossa primeira partida: “A partir de agora tudo será diferente!”

Fui a lugares que nem imaginava que pudessem existir, conduziu-me de bicicleta a topos de montanhas que eu achava impossível alcançar e de lá nos fez descer serenos sem nos perdermos nem magoarmos… Fez-me sentir cheiros que nenhuma palavra pode descrever e abriu-me os olhos para um mundo novo ao qual “os meus caminhos” ainda não davam acesso… O medo e a desconfiança do princípio, debaixo da árvore, desapareceram com a experiência de liberdade e verdade profundas que ele me fazia saborear. Uma vez, enquanto atravessávamos uma enorme planície, perguntei-lhe por cima do ombro por onde andávamos. Fez um silêncio matreiro de suspense e respondeu-me: “Estes são os meus caminhos”! Ri-me à gargalhada e, a meio do meu riso, disse: “Mas agora podes chamá-los também de teus”…

Aconteceram já tantas coisas desde que eu comprei a bicicleta nova e depois ele me pediu que o deixasse guiar… Nem com uma noite inteira de palavras contaria o que vivemos juntos. Além disso, as palavras ficam sempre tão pobres quando chega a altura de contar histórias destas… Já lá vão uns anos, e continuo no banco de trás da minha bicicleta de dois lugares. Demorou mas percebi que era este o meu lugar! Nunca me senti tão feliz…

Quando, pelos dedos apontados de Jesus por cima do meu ombro, os “meus caminhos” foram dar “aos caminhos dele”, tudo começou a fazer sentido de uma maneira nova e profundamente plenificante. De vez em quando eu ponho-me a olhar para trás ou para os lados com olhar vazio… Então, ele olha de relance para mim e, ao ver-me assim, dá um “trim-trim” valente para eu perceber para onde vamos. E o “vazio” desaparece… E o “lá atrás” torna-se longe e pequeno demais para que valha a pena lá voltar… Um dia contei-lhe estas coisas todas e ele disse-me que se chamavam “Confiança”. E eu acreditei… Porque ele nunca me deu motivos para eu não acreditar...

SHALOM!

Rui Santiago

Mais um texto primoroso de Rui Santiago.

sábado, 2 de julho de 2011

Confirmar e simplesmente agradecer...


…e chega sempre a hora de experimentarmos profundamente a fidelidade de Deus para conosco! Percebemos, finalmente, a verdade absoluta das promessas de Jesus: “Quem aceita o meu testemunho confirma que Deus é verdadeiro!” (Jo 3, 33) quando fazemos a experiência do “cem vezes mais” do que aquilo que deixamos (Mc 10, 29-30). Percebemos, então, com um sorriso, que foi tão pouco o que deixamos…
A confirmação dessa verdade tem a ver com o sentimento profundo da plenitude e da realização pessoal, a certeza de que valeu a pena ter nascido para vivermos exatamente por aquilo que vivemos! Sentimo-nos inteiros, completos... ainda que não acabados. É uma sensação de unidade total, de integração interior de todas as dimensões da vida. É a experiência oposta à dispersão e à crise…
O caminho da fidelidade faz-nos saborear a confirmação das decisões que fomos assumindo e dos riscos que fomos correndo em busca de Mais Vida que a Palavra propõe. Experimentamos que o amor vence sempre e que só as decisões por ele inspiradas são verdadeiramente duradouras e humanizantes.
À medida que vamos construindo a nossa história de amizade que se transforma em amor profundo, começa a acontecer que outros comecem a construir também por terem se encontrado conosco…
Então, nos damos realmente conta de como o Evangelho de Jesus “funciona” como dinâmica libertadora na vida das pessoas! Isto começa a fazer tanto sentido que surge dentro de nós o impulso da missão. A nossa história pessoal de amizade com Jesus abre-se a outras histórias e torna-se inspiração de Evangelho.
À medida que vamos amadurecendo, aprendemos que as nossas “demissões” bloqueiam muito mais o Evangelho na vida das pessoas que estão ao nosso redor, do que as nossas imperfeições ou limitações pessoais. Quando isto acontece, começamos a confiar de verdade no Espírito Santo, na eficácia da Sua ação, e Ele revela-nos muitas vezes e de muitas maneiras que, de fato, é Ele mesmo que faz maravilhas! Nós somos apenas instrumentos Seu!
Isto representa uma nova experiência de encantamento, mas agora com outra maturidade, outro sabor e outro alcance… Um encantamento que sabe a gratidão, uma gratidão desmedida por nos sentirmos conhecidos, amados e infinitamente confirmados por aquele Jesus em nome do qual tínhamos antes decidido a nossa vida.
Esta confirmação está sempre associada à experiência da fecundidade. Ninguém pode ser Feliz sem ser fecundo! E a fecundidade humana tem um alcance muito maior que o biológico. A fecundidade humana tem a ver com a nossa capacidade de amarmos e com as causas nas quais realizamos esse amor. Quando alguém nos diz: “Sou mais Feliz por te ter conhecido!”, está nos dando o testemunho da nossa fecundidade, que significa a eficácia humanizante da nossa vida junto dos outros.
À medida que a nossa história pessoal de amizade com Jesus vai “alargando as nossas fronteiras” e vai tocando outras pessoas, começamos a experimentar muitos “mimos de Deus”, verdadeiras minúcias da Sua Ternura. Por quê?! Porque essas pessoas com as quais vivemos e anunciamos o Evangelho, ao abrirem-se aos apelos do Espírito Santo no seu Coração, tornam-se também elas próprias mediações do Seu amor por nós!
Vamos experimentando diante dos nossos olhos a eficácia libertadora do Evangelho de Jesus no coração das pessoas e a sabedoria que emerge no cotidiano dos que abrem a mente à Palavra de Deus. Confirmamos então, que Aquele que nos chamou é Vivo e Verdadeiro! Confirmamos também que toda a nossa caminhada pessoal de fé, esperança e amor; à medida de Jesus fez de nós pessoas felizes, preenchidas e realizadas. Somos libertos dos medos e dos bloqueios que antes carregávamos porque descobrimos em Quem está o segredo da nossa força.
É esta experiência de confirmação que nós gostaríamos de ter antes da decisão. Para que ela não tivesse que acontecer tantas vezes em forma de crise… Mas tudo isto só se pode experimentar mesmo, depois, quando a vida já está posta ao serviço, quando arriscamos o salto para o “abismo da confiança” e percebemos que as regras do jogo se resumem todas a um amor maior que o medo, o pecado e a morte!
Quando saboreamos a fecundidade da nossa vocação e a tranquilidade de termos os pés assentados em rocha firme, até os enfrentamentos por causa do Evangelho nos fortalecem. Porque não é possível viver o Evangelho de Jesus sem tomar partido por ele em situações bem concretas e visíveis e isso, às vezes, acontece como um “sinal de contradição” forte demais para alguns…
Quando, os marginalizados e acusados pelos poderosos, e os puros do mundo, se sentirem consolados e libertos pelas nossas escolhas, e os opressores e acusadores dos irmãos se sentirem incomodados por elas, fazemos uma profunda experiência de confirmação! Porque essa é a sina dos Profetas e dos “Homens de Deus” em toda a história… A "sina dos Profetas" é um sinal claro de Confirmação da veracidade das nossas vidas e das nossas escolhas que o Espírito Santo nos ensina a ler com muita Alegria!
E, no fim, acabamos sempre por resumir tudo a uma indescritível gratidão, um sentimento admirável de termos sido chamados e puxados para uma intensidade de Vida que nenhum dos nossos projetos poderia sequer vislumbrar! Esta gratidão transforma-se dentro de nós num desejo irrenunciável de Fidelidade. E, sem dúvida nenhuma, quando falamos da nossa vida como vocação, a fidelidade é o caminho mais curto para a felicidade!
Jesus fartou-se de dizer isto e não consta que alguém se tenha dado mal por lhe ter dado crédito! Nós é que temos um medo enorme que conosco possa ser diferente…

Rui Santiago

*Este é o último texto da série "Vocação".É, infelizmente acabou... rsrsrsr... Adorei dar uma "cara" nova a eles. E neste quase não fiz adaptações, exceto do português "de Portugal" para o português "do Brasil". Amei estes textos do Rui Santiago... E confesso que gostaria de saber mais sobre ele... parece ser um presbítero, mas não encontrei nada que confirme isso. Ele tem blogs que se ligam uns ao outros... mas coisas que não dão muita informação...

Em todo caso, todas essas fases pelas quais passamos em busca de confirmar nossa vocação, lembram demais aquilo que passamos também em busca de sentido a nossa vida, seja ela amorosa, religiosa, profissional, de amizade... enfim... de nossa vocação PELA VIDA! Feliz daquele que confirma e agradece a PRESENÇA enorme do amor em suas vidas. Amor esse inspirado por Deus e vivido plenamente em nossa missão de Cristão! E que consegue-se "encantar-se" a cada dia com isso como se fosse a primeira vez...

Agradeço demais a Rui Santiago ou a quem quer que tenha sido o autor dos originais. Na internet a gente nunca sabe a quem pertencem as coisas... E peço perdão se alterei algumas linhas e acrescentei outras. Minha intenção nunca foi "roubar" a idéia e sim, mostar o quão lindos e verdadeiros são estes textos.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A bofetada!


…depois da decisão, demoramos sempre algum tempo para por de volta os pés no chão. Quando jovens, temos a tentação de pensar que numa decisão importante ficou toda a vida decidida a partir daí. Mas logo descobrimos que todas as decisões importantes da vida são progressivas… Quando tomamos uma decisão importante, daquelas que nos mudam de rumo, devemos perceber que o que fizemos foi... Somente decidir que direção tomar dali pra frente! E daí virão muitas outras decisões...
Quando decidimos nos arriscar e abrir caminhos novos, renovamos muitas vezes a experiência do encantamento do princípio, aquilo que no livro do Apocalipse se chama “voltar ao amor primeiro”… Todos os dias parecem que nascem com o sol brilhando mais que no dia anterior.
Mas as decisões importantes da nossa vida não a resolvem para sempre... Apenas lhe dão uma direção. Por isso, acaba sempre por haver uma experiência estranha de confronto com a realidade. Coisa que não estávamos esperando. E essa experiência assemelha-se a uma “bofetada”, como um impacto inesperado e rapidamente doloroso. Começa por acontecer quando, ao passar dos dias, vamos tomando consciência de que a nossa decisão, afinal, não nos mudou tão radicalmente quanto nós pensávamos! As coisas continuam a parecer dolorosamente: “iguais”!
E a gente vai se encontrando com uma quantidade enorme de debilidades, imperfeições e bloqueios que julgávamos terem sido derrotados por essa nossa “decisão” tão corajosa. Acordamos e percebemos que essa mudança, afinal, é uma cadeia de decisões muito cotidianas e simples... E que a primeira apenas marcou a direção a seguir. Cotidianas e simples, mas igualmente importantes, porque gestos heróicos quase todos somos capazes de tomar de vez em quando na vida, mas isso não chega!
No encontro com o que ainda há de mudar em nós, percebemos que uma Decisão verdadeiramente autêntica é uma história e não um momento definitivo! Esta consciência é fundamental na história do crescimento de uma relação, porque é aqui que se salta definitivamente para o adultecer! Aqui vemos que vamos crescendo em nosso caminho de discípulos desse amor verdadeiro. Só aquele que nunca deixa de se sentir discípulo pode chegar a ser um apóstolo fecundo.
Nesta fase é novamente importante encontrarmos quem seja para nós uma boa mediação dessa caminhada para nos ajudar a aprendermos a lidar com a nossa própria imperfeição. Porque quando somos verdadeiros e fiéis à nossa decisão, podemos facilmente cair na tentação do rigorismo e da impaciência conosco próprios. Felizes aqueles que encontram no seu caminho quem seja instrumento do Espírito de Deus que os conduz à paz e à paciência. Felizes aqueles que encontram quem lhes diga que a maturidade é um ponto de chegada, não um ponto de partida!
Mas esta experiência da nossa própria “crueza” pode não ser a única “bofetada” que sentimos depois de assumirmos e levarmos adiante uma decisão importante nessa vida nova… O que mais dói é experimentarmos que os nossos “companheiros” neste tipo de decisões, que às vezes nos levam de avanço longos anos, são pessoas pobres e imperfeitas… e, às vezes até, pouco sérias! Isto dói muito… Porque nos faz sentir muitas vezes, que estamos sozinhos e perguntar que futuro nos reserva a vida que começamos a construir…
Começamos a ver diante dos nossos olhos que há quem entenda de mil maneiras diferentes o que é viver essa história profunda de amor sem medidas e muitas delas são agem exatamente ao contrário do que preceitua esse amor! Nestes momentos tremem os paradigmas e os pontos-de-referência e torna-se indispensável um processo interior de diálogo. Uma revisão de todo o nosso processo de maturidade e ume star em paz com Aquele que encontramos e fazer de suas Palavras fonte de critérios e fortaleza.
Mas, quando passamos por tudo isto enamorados, experimentamos também uma indescritível segurança. Não pomos em dúvida a decisão que tomamos… Procuramos é o modo mais correto e justo de concretizá-la sempre, ainda que tenhamos que assumir a diferença “profética” ou o risco de viver em contramão. E vale pensar que somos discípulos daquele que é capaz do mais profundo amor, Aquele que deu a vida por mim, mas que não me abandonou nunca! Uma bofetada pode virar-nos a cara, mas não nos vira a direção dos pés.
E depois, quando tudo já ficou para trás, sorrimos ao lembrar esses momentos fundamentais que fizeram com que fossemos quem somos. E, entretanto, esse espírito nunca nos abandona, vai-nos sussurrando por dentro que continuará a estar sempre conosco. E nós acreditamos! Porque já sabemos que é verdade…

Angela Rocha
*Texto Adaptado