quinta-feira, 27 de agosto de 2015

SACUDINDO O PÓ DAS SANDÁLIAS


“Quanto àqueles que não vos acolherem, ao saírem daquela cidade, sacudam o pó das suas sandálias, para que sirva de testemunho...”. 
(Lucas 9,5)

Eu sempre me perguntei o que exatamente Jesus quis dizer nessa passagem bíblica. Ela sempre foi para mim objeto de espanto, em princípio ela parece uma atitude muito rigorosa. Mas, por que Cristo instruiu os discípulos a agirem assim? Parece uma recomendação um tanto dura com relação ao trabalho missionário. Teria ele ficado indignado com aqueles que se recusavam a ouvir sua mensagem? Ou estaria “lavando as mãos”? Qual é, realmente, a nossa responsabilidade quando as pessoas, simplesmente, não querem nos ouvir?

Pois bem, essas minhas inquietações estão bem condizentes com o momento que estou vivendo. Estou me sentindo bem fracassada nesta minha última “aventura” em ser catequista numa comunidade e fazer parte dela. Tentei durante três anos, modificar algumas coisas na catequese, implantar novos projetos e ser aceita como uma pessoa que quer e pode ajudar. Infelizmente não foi possível. Minhas palavras caíram no vazio de alguns, infelizmente, de quem “manda”. Paciência... Parece que me resta sacudir o pó das sandálias e partir para outro povoado.

Mas esse “sacudir o pó das sandálias” não é nada de revolta, impaciência ou mágoa. É simplesmente a tomada de consciência de que algumas pessoas não estão ainda preparadas para viver a “radicalidade” do que é realmente a “Boa Nova”. Isso virá com o tempo.

Acredito que essa recomendação de Jesus é para mim, uma recomendação de tolerância. Claro que não é fácil falar e não ser ouvida, e receber um balde de água fria em seu entusiasmo. É deprimente saber que tudo o que se faz com o maior carinho, é tratado com a mais pura indiferença.

Mas, se acontecia com Jesus, por que não pode acontecer comigo? Quem sou eu, perto Dele? O desafio disso tudo é justamente encarar e entender essa desatenção como falta de preparo e medo da mudança. Mudanças abalam as estruturas e o comodismo é confortável.

Com tudo isso não quero me dizer “superior” e a “sabe tudo” do pedaço. Aliás, isso serviu para eu pensar numa profunda mudança em meu jeito de agir. E que nem sempre quem recebe a novidade está preparado para acolher bem o que é novo. Algumas pessoas não têm como mudar, não porque não queiram, mas porque não entendem e não confiam naquilo que pode desorientar seu costumeiro modo de pensar. “Desinstalar-se” não é para qualquer um! Aquilo que para mim é tão fácil e simples, porque estou acostumada, pode parecer ao outro uma coisa do outro mundo.

E o ser humano é muito complexo. Fora a complexidade que é o próprio ambiente em que nasceram e foram criados. As culturas são diferentes, as maneiras de agir vêm de suas heranças culturais, étnicas, sociais, enfim...

Quando venho de uma outra cultura meu modo de agir choca um pouco, trago uma postura diferente, um olhar “novo” sobre todas as coisas. Sem contar que meu jeito expansivo e franco é confundido com um caráter arrogante e brusco, e até ofensivo em algumas ocasiões. Minha impaciência e minha urgência foram lidas, muitas vezes, como impertinência.

E as leituras pessoais e o conhecimento levam tempo, meses e até anos. E como não tenho esse tempo, já não sou tão jovem, não como desaforo ou represália, mas por tolerância e amor, só me resta “bater o pó das sandálias”. Haverá ainda um outro tempo, um outro missionário.

Meu desafio agora é “tolerar”, buscar uma segunda trilha, tirando o pó das sandálias. E esse pó, do qual preciso me livrar, encaro como se fosse o poder de provocar represálias, carregar mágoa, raiva, direito de resposta e... vontade de desistir de tudo e abandonar a missão. Essa é uma lição preciosa. Li em algum lugar que batendo as sandálias, a gente deixa cair no chão sementes daquilo que queremos plantar. E isso é esperança. Quem sabe deixei sementes que possam germinar e florescer no futuro?

Acredito que Deus é aquele que não nos abandona nunca. E nos conhece mais do que nós mesmos nos conhecemos. Com essa minha mudança acredito que Ele está me dizendo que minha tarefa foi cumprida, e não há mais nada que eu possa fazer. Acho que estou tendo a oportunidade de tirar o pó das sandálias no momento certo… antes que me coloquem para fora com sandália, pó e tudo! Rsrsrsrs. Talvez eu tenha passado da medida, insistindo com quem não tem condição de absorver mais, pelo menos nesse momento. Arrumei muita confusão por causa disso, talvez tenha até prejudicado algumas pessoas que me apoiaram. Meus anjos da guarda tiveram muito trabalho neste nestes últimos anos.

Mas aprendi muito. Aprendi que tenho limites. Por mais que eu me prepare e me instrua tenho que pensar que ainda tenho muito que aprender e caminhar. Tenho que entender que o ser humano tem limites. E preciso aprender a esperar. Há o tempo se semear, de esperar a germinação, a planta crescer, dar frutos e, só então, colhê-los.

E gente não é igual milho que tem duas safras por ano...

Não. Não gastei minhas sandálias à toa. Tenho certeza. Só estou sacudindo a poeira para renová-las em outro chão e em outro pó. Tolerância, persistência, paciência. Estas são as lições que aprendi. E “baixa a bola” um pouco, Dona Catequista! Esqueceu o que é também um aprendiz?

E eu peço a Deus que continue a me dar forças para continuar semeando e me faça ter paciência, esperar e caminhar sempre... E, se necessário, que eu saiba sempre o momento de sacudir minhas sandálias e buscar novos caminhos.

Ângela Rocha

Catequista

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Bonita que só ela!


Estamos habituados a revoluções feitas com armas, que deixam um fio de sangue a escorrer no chão… Estamos habituados a confiar nas mudanças que são impostas pela força, porque nos queixamos muito da violência, mas, é sempre a ela que recorremos quando queremos que as coisas fiquem diferentes…

É por isso que o Evangelho ainda nos parece tão estranho, às vezes…Porque nos conta a história de uma revolução feita de ternura. Porque o Evangelho nos conta a mudança mais decisiva que foi introduzida no mundo, mas é uma mudança selada pela mansidão e pela não-violência.

Era uma vez uma mulher, bonita que só ela, uma mulher que vivia numa aldeia pequenita da Galileia chamada Nazaré, e ficou para sempre ligada à história que muda a história! O nome dela era Maria e foi da sua boca que nasceu o hino mais revolucionário que se tinha ouvido alguma vez. Foi uma exultação de alegria, porque há revoluções que nascem da Felicidade! Foi um clarão de Esperança, porque há revoluções que nascem de uma Promessa!

Era uma vez uma mulher, bonita que só ela, que sentiu a vida visitada pela bondade de Deus e, por causa disso, abriu as portas e percorreu os montes. Era uma vida d’esperanças, semeada de futuros, e dentro de si uma Palavra ganhava corpo. Foi ela quem ouviu a primeira Bem-Aventurança do Evangelho: “Feliz de ti que acreditaste que vai cumprir-se tudo o que foi dito da parte do Senhor! ” Por isso mesmo, ela cantou logo depois: “De hoje em diante, todas as gerações me chamarão FELIZ! ”

Era uma vez uma mulher, bonita que só ela, que era uma pessoa feliz por causa da Esperança que Deus encontrou nela e por causa da Confiança que ela encontrou em Deus.

Voltamos o nosso rosto para Maria porque queremos aprender dela a coisa mais importante de todas: que Esperança é essa, que Confiança é essa, que faz de ti “Maria Feliz”?

Rui Santiago, cssr.