SACUDINDO O PÓ DAS SANDÁLIAS
“Quanto àqueles que não vos acolherem,
ao saírem daquela cidade, sacudam o pó das suas sandálias, para que sirva de
testemunho...”.
(Lucas 9,5)
Eu
sempre me perguntei o que exatamente Jesus quis dizer nessa passagem bíblica.
Ela sempre foi para mim objeto de espanto, em princípio ela parece uma atitude muito
rigorosa. Mas, por que Cristo instruiu os discípulos a agirem assim? Parece uma
recomendação um tanto dura com relação ao trabalho missionário. Teria ele
ficado indignado com aqueles que se recusavam a ouvir sua mensagem? Ou estaria
“lavando as mãos”? Qual é, realmente, a nossa responsabilidade quando as
pessoas, simplesmente, não querem nos ouvir?
Pois
bem, essas minhas inquietações estão bem condizentes com o momento que estou
vivendo. Estou me sentindo bem fracassada nesta minha última “aventura” em ser
catequista numa comunidade e fazer parte dela. Tentei durante três anos, modificar
algumas coisas na catequese, implantar novos projetos e ser aceita como uma
pessoa que quer e pode ajudar. Infelizmente não foi possível. Minhas palavras
caíram no vazio de alguns, infelizmente, de quem “manda”. Paciência... Parece
que me resta sacudir o pó das sandálias e partir para outro povoado.
Mas
esse “sacudir o pó das sandálias” não é nada de revolta, impaciência ou mágoa.
É simplesmente a tomada de consciência de que algumas pessoas não estão ainda
preparadas para viver a “radicalidade” do que é realmente a “Boa Nova”. Isso
virá com o tempo.
Acredito
que essa recomendação de Jesus é para mim, uma recomendação de tolerância.
Claro que não é fácil falar e não ser ouvida, e receber um balde de água fria
em seu entusiasmo. É deprimente saber que tudo o que se faz com o maior
carinho, é tratado com a mais pura indiferença.
Mas,
se acontecia com Jesus, por que não pode acontecer comigo? Quem sou eu, perto
Dele? O desafio disso tudo é justamente encarar e entender essa desatenção como
falta de preparo e medo da mudança. Mudanças abalam as estruturas e o comodismo
é confortável.
Com
tudo isso não quero me dizer “superior” e a “sabe tudo” do pedaço. Aliás, isso
serviu para eu pensar numa profunda mudança em meu jeito de agir. E que nem
sempre quem recebe a novidade está preparado para acolher bem o que é novo. Algumas
pessoas não têm como mudar, não porque não queiram, mas porque não entendem e
não confiam naquilo que pode desorientar seu costumeiro modo de pensar. “Desinstalar-se”
não é para qualquer um! Aquilo que para mim é tão fácil e simples, porque estou
acostumada, pode parecer ao outro uma coisa do outro mundo.
E o
ser humano é muito complexo. Fora a complexidade que é o próprio ambiente em
que nasceram e foram criados. As culturas são diferentes, as maneiras de agir
vêm de suas heranças culturais, étnicas, sociais, enfim...
Quando
venho de uma outra cultura meu modo de agir choca um pouco, trago uma postura
diferente, um olhar “novo” sobre todas as coisas. Sem contar que meu jeito
expansivo e franco é confundido com um caráter arrogante e brusco, e até
ofensivo em algumas ocasiões. Minha impaciência e minha urgência foram lidas,
muitas vezes, como impertinência.
E as
leituras pessoais e o conhecimento levam tempo, meses e até anos. E como não
tenho esse tempo, já não sou tão jovem, não como desaforo ou represália, mas
por tolerância e amor, só me resta “bater o pó das sandálias”. Haverá ainda um
outro tempo, um outro missionário.
Meu
desafio agora é “tolerar”, buscar uma segunda trilha, tirando o pó das
sandálias. E esse pó, do qual preciso me livrar, encaro como se fosse o poder
de provocar represálias, carregar mágoa, raiva, direito de resposta e...
vontade de desistir de tudo e abandonar a missão. Essa é uma lição preciosa. Li
em algum lugar que batendo as sandálias, a gente deixa cair no chão sementes
daquilo que queremos plantar. E isso é esperança. Quem sabe deixei sementes que
possam germinar e florescer no futuro?
Acredito
que Deus é aquele que não nos abandona nunca. E nos conhece mais do que nós
mesmos nos conhecemos. Com essa minha mudança acredito que Ele está me dizendo
que minha tarefa foi cumprida, e não há mais nada que eu possa fazer. Acho que
estou tendo a oportunidade de tirar o pó das sandálias no momento certo… antes que
me coloquem para fora com sandália, pó e tudo! Rsrsrsrs. Talvez eu tenha
passado da medida, insistindo com quem não tem condição de absorver mais, pelo
menos nesse momento. Arrumei muita confusão por causa disso, talvez tenha até
prejudicado algumas pessoas que me apoiaram. Meus anjos da guarda tiveram muito
trabalho neste nestes últimos anos.
Mas
aprendi muito. Aprendi que tenho limites. Por mais que eu me prepare e me
instrua tenho que pensar que ainda tenho muito que aprender e caminhar. Tenho
que entender que o ser humano tem limites. E preciso aprender a esperar. Há o
tempo se semear, de esperar a germinação, a planta crescer, dar frutos e, só
então, colhê-los.
E
gente não é igual milho que tem duas safras por ano...
Não.
Não gastei minhas sandálias à toa. Tenho certeza. Só estou sacudindo a poeira
para renová-las em outro chão e em outro pó. Tolerância, persistência,
paciência. Estas são as lições que aprendi. E “baixa a bola” um pouco, Dona
Catequista! Esqueceu o que é também um aprendiz?
E
eu peço a Deus que continue a me dar forças para continuar semeando e me faça
ter paciência, esperar e caminhar sempre... E, se necessário, que eu saiba
sempre o momento de sacudir minhas sandálias e buscar novos caminhos.
Ângela
Rocha
Catequista
muito bom ler seus postes, tem muito em comum, o principal a missão, a sua é também nos manter em pé. e a faz muito bem !!! Obrigada pelo seu sim !! Ana Paula
ResponderExcluirEra o que eu precisava ler.
ResponderExcluirAdorei!!!
ResponderExcluirEstou lendo esta entrada em 2025.. quase 10 anos depois e que BENÇÃO! Um ensinamento ou perspectiva que precisava ouvir (neste caso ler) neste preciso momento da minha vida. Muito bom! Que Deus continue te abençoando
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