sábado, 3 de dezembro de 2011

Reminiscências...


 
Lembro-me de um natal quando tinha cinco ou sei anos. Morávamos no interior, na sede de um distrito, não me lembro exatamente o que meu pai fazia nessa época, só sei que morávamos numa casa nos fundos da casa de uma outra família. Para variar, nossa situação financeira não era lá muito boa. Meu irmão mais novo nasceu nessa casa. Lembro-me daquela noite, do corre-corre, da parteira chegando, minha irmã mais velha mandando a gente voltar pra cama, do choro do bebê.

Meu irmão nasceu em junho. As lembranças de criança são um tanto esparsas e depois do nascimento do dele, me lembro do natal. Meu Pai chegou bem tarde naquela véspera. Trazia ás costas, um saco cheio de coisas para nós. Éramos nove filhos nessa época. Para as meninas menores, eu e minha irmã, ele trouxe uma bonequinha de plástico para cada uma, daquelas com cabelo que parece de milho. Para os dois meninos mais novos ele trouxe um carrinho. Um só. Um dos meus irmãos, o que tinha 10 anos, recusou e disse que não precisava de presente. Lembro-me do meu pai ter ficado zangado. Lembro do meu irmão chorando. Lembro-me de minha mãe triste. Lembro de meu pai ter pego o cinto e batido no meu irmão. São lembranças tristes. Não sei se meu pai não tinha dinheiro suficiente ou se ele esqueceu de um dos meninos. Só sei que foi triste. E isso dói.

Lembro-me ainda, de que quando moramos nessa casa, não havia água encanada nem poço e precisávamos pedir licença para nossos vizinhos da frente para pegar água num cano que passava no meio do terreiro entre as duas casas. Isso fazia com que a água para a casa da frente fosse interrompida. E isso nos custava muitos xingos. Anos mais tarde minha mãe me contou que essa família chegou a nos sustentar por uns tempos. Acabaram sendo padrinhos de meu irmão que nasceu lá. Eram épocas de vacas magras.

Bem, por falar em vaca, no dia seguinte ao natal, eu estava brincando no pátio e esqueci minha bonequinha na cerca e uma vaca mastigou! Que coisa! Essa mesma vaca já tinha mastigado uma blusinha de flanela que minha mãe tinha costurado pra mim. Bem feito, quem manda esquecer as coisas lá fora!

Mas nem tudo era tristeza. Brinquei muito naquele lugar. O sítio proporciona isso pra gente: espaços abertos, natureza, árvores, riachos, crianças. Naquela época ainda não ia à escola e só brincava. Infelizmente havia sempre uma vaca para estragar tudo! Mas crianças não vêem a vida com olhos de tristeza. Elas têm olhos de aventura, enxergam aquilo que os adultos, com os olhos embaçados já esqueceram.

Voltei aquele lugar quando adulta. Qual não foi a minha surpresa ao observar que aquele mundo, aquelas coisas que para mim eram tão grandes, agora pareciam tão pequenas, sem vida e sem graça. O mundo passou a ser pequeno, meus olhos já não tem tanta perspectiva. Já não vejo o filete de água do riacho como um grande rio a ser atravessado com um barco pirata. Como diria Rubens Alves, com as suas jabuticabas, já não há pêssegos e peras a serem comidas no galho mais alto. A gente se contenta com as da feira mesmo.

Angela Rocha 

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