quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O mercado do amor...

Tenho saído de casa de manhã bem cedo. Antes das sete e trinta já estou na rua. Moro numa região residencial com muitos prédios de apartamentos.

E tenho observado um fato curioso. Muitos moradores estão nas calçadas passeando com seus cães. São poodles, Lhasa, shihtzu, pequinês, pinscher e outros tantos nomes que nem sei dizer. E é interessante observar que por mais pomposas que as pessoas sejam, lá estão elas com as sacolinhas e pazinhas, juntando coco do chão... Perdoem-me a comparação, mas, será que fariam isso por seus filhos? E é assustador quantidade de pessoas “conversando” com os animais, e de “comadres” contando uma a outra as “aventuras” de seus “filhotes” ( e aqui leia-se “filhos pequenos” mesmo).

E estive pensando no que afinal ocasionou essa "proliferação" de amor canino por parte das pessoas. Carência afetiva? Falta de companhia? De amor? Tudo, tudo, leva à “solidão” e a falta de confiança numa relação verdadeiramente “humana”, onde os pares têm o direito de pensar e discutir a relação.

E, tirando algumas poucas pessoas que tem verdadeira paixão por animais e a solidão de quem procura companhia, a grande maioria aderiu a "moda". Hoje encontrei uma pessoa, as sete e meia da manhã passeando com um pastor alemão de casaco de lã... O cão... não a dona! Quando foi que os animais começaram a necessitar de roupas? Não resisti à imagem que me veio a cabeça de cães de trenó vestidos de casado, luvas e botas de camurça...

E a moda que falo nem se trata de vestir o cão ou ter um cão para "fazer parte" da sociedade. Falo que a moda agora é: se não tenho amor, nem posso expressá-lo com outro ser humano, eu o "compro"! Sim, se é verdade que os cães "fazem parte da família" e são amados como filhos, é verdade também que foi um amor adquirido no mercado consumista do novo milênio. E ao gosto e estilo do freguês.

Os setores de medicina veterinária; indústria de ração; pet shops (verdadeiros "salões de beleza" caninos); e moda canina (sim!), agradecem. Gasta-se com um cão em média dois salários mínimos por mês. Imagino que exista a "indústria" que “fabrica” os bichinhos também. Porque a gente vê poucos cães domésticos procriando. E a infinidade de raças, das quais nunca ouvimos falar antes, que apareceram por aí? Desconfio que muitas foram criadas em laboratório...

Saudade do bom e velho "vira-lata". Um filhote de raça não custa menos que R$ 700. Gastos com ração, veterinário, banhos, tosas, roupas, etc. e tal,  levam uma família a pensar seriamente se vale a pena ter um cão.

Mas, algumas coisas pesam na balança em favor dos cães: ainda é mais barato que ter um filho. Você pode escolher a cor, o porte, o aspecto, a raça, as características físicas, enfim; ele pode até ir pra escola de adestramento, mas nunca fará faculdade; nunca vai ter uma discussão com você porque quer ir a balada... E a expectativa média de vida dos cães não passa de quinze anos, ao final desse tempo pode ser perfeitamente substituído. Você também pode escolher se ele terá filhos e lhe dará "netos"; pode ser deixado em um hotel, sem remorsos, quando você viajar; e pode até doá-lo a um amigo se chegar a conclusão que isso não é pra você... Enfim, o inconveniente de levantar de madrugada para passear na calçada com um cão e juntar coco, é bem menor que ter um filho!!

Nada contra se ter animais. Desde os primórdios, os animais domésticos, como os cães, são companhias excelentes para o ser humano. Mas acredito que as coisas deveriam continuar sendo "naturais". Cães, gatos, tartarugas, hamsters... virou objeto de consumo e são comercializados indiscriminadamente. E atrelado a isso vieram os serviços para dar suporte a esse consumo. Temos casas de ração, petshops a razão de duas lojas a cada quarteirão. Encontramos ração, shampoo e sabonete para os animais; nas prateleiras de todas as pequenas lojas, mesmo na periferia e em comunidades mais pobres.

Mas, alarmante mesmo, é a quantidade de cães que se tem encontrado abandonados por aí, feito casaco velho que não se usa mais. Mais ou menos como acontece quando uma relação acaba. Só que não dá pra pedir a um cão que “vá cuidar da vida”. E mais alarmante ainda é pensarmos nas crianças que estão jogadas por aí também, e que custariam bem menos ao bolso que um cachorro...


Ângela Rocha

OBS.: Não pensem vocês que sou "inimiga" dos bichinhos. Gosto deles, mas, como bichos de "estimação" mesmo.

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