terça-feira, 19 de novembro de 2013

Formação permanente... O labirinto e a liberdade

E novamente estou numa sala de aula.
Aluna agora. De novo...

Apareceu uma oportunidade de fazer uma pós-graduação/especialização e cá estou eu as voltas com aulas, leituras, livros, artigos, resenhas. Desta vez estou indo para outros rumos. A especialização é em Metodologia do Ensino Superior.

A primeira disciplina já "venci"... rsrrsrs.


E aqui vai minha primeira resenha crítica ... E já me rendeu elogios do professor! Tá pensando o que?


Resenha crítica do texto: Sala de Aula: Da angústia de Labirinto à Fundação da Liberdade. *
Autor: Newton Aquiles von Zuben

1. Dados do Autor

Newton Aquiles von Zuben  -  Doutor em Filosofia  -  Université de Louvain; Professor Titular  -  Faculdade de Educação da UNICAMP - e-mail: navzuben@obelix.unicamp.br .

2. Resenha

Estava aqui tentando produzir minha primeira resenha. E escolhi para fazer primeiro, o texto de que mais gostei: “Sala de Aula: Da angústia de Labirinto à Fundação da Liberdade...” e boto aqui reticências no título porque a angústia parece não acabar nunca!

E para começar uma resenha a gente lê. Claro! Depois lê de novo. E lê novamente. E então vai enxergando ali coisas que vão além das palavras, frases, linhas e até das entrelinhas! E começa a grifar as idéias mais contundentes, aquilo que se considera mais importante de se destacar, o que merece uma reflexão mais acurada, o que passa despercebido ao primeiro, segundo olhar e, talvez, até do terceiro olhar... Ah, mas, e quando depois da terceira olhada a gente vê que grifou tudo e não tem como resumir nada?

Para resenhar o texto de Zuben, é preciso então, começar contando uma história. Nada se compara a contar uma história lembrando de outra. O autor faz isso lembrando a percepção de que nem sempre a felicidade está ali, na primeira “cavoucada”, como conta Walter Benjamim. Pode-se cavar muito e descobrir que nem precisava... a coisa estava ali, saltando da terra aos nossos olhos. Nem é preciso dizer quantas e quantas vezes a gente tropeça na verdade e prefere seguir em frente em busca daquilo que não passa de vaidade...

E aquela pretensão do autor de que não vai “construir uma teoria sobre a educação formal...”; acabou por construir em mim uma teoria mais do que séria. Ele busca “pistas para pensar” a sala de aula longe de pesquisas formais e do rigor de experiências e teses acadêmicas. Ele diz estar nos convidando a “deixar de lado preconceitos” para descobrir aquilo que nos passou despercebidos até hoje: o quanto o conceito de “sala de aula”, “antiqüíssimo e quadrado” como diz ele, pode ser visto de mil e outras formas.

E, destas tantas formas de olhar, surge a “minha” história de “sala de aula”. Desenterrando o “tesouro” que lá encontrei. Sim, tesouro com certeza! Von Zuben não sabe o favor que me fez ao escrever este texto! Ele resgatou para mim uma sala de aula sem paredes, sem balizas, sem fronteiras e que, se um dia foi labirinto, eu o atravessei rindo e encontrando a liberdade a cada virar de esquina. Talvez porque tenha tido a sorte de contar com bons mediadores ou por ser daquelas pessoas  que os procura sem usar uma pá...

A sala de aula é um evento pelo qual todos passam e que; como bem lembrou várias vezes, o professor da disciplina; aonde todos se encontram. Porque aqui não estamos considerando na pauta, nossos analfabetos e excluídos. Não neste terceiro milênio onde o próprio mundo já não tem fronteiras! Vamos ser poéticos e acreditar que, bem ou mal, todos um dia entram numa sala de aula.

E vamos encontrar a primeira das grandes eloquências do texto: “Sala de aula: para muitos, espaço geométrico onde se faz de conta que se ensina aquele que imagina que está aprendendo alguma coisa... jogo de máscaras! Papéis, papéis, papéis.” E o quanto isso passa pela verdade de muitos! Quem já não se prestou ao “papel” de aluno lendo somente as “falas do texto”? Ou pior e arrepiante: encenou magistralmente o “papel” de professor lendo um “script” sem possibilidade alguma de improviso ou mudança de texto? Nem que fosse para aumentar o público...

Eu não sei bem se na “minha” história alguém chegou a “pensar o evento” além de maior eficiência do ensino ou de resultados para satisfação de objetivos políticos e metas. A questão é que tive alguns professores que não estavam ali “fazendo de conta” que ensinavam. E que, nessa sua atitude de, “talvez, quem sabe”, ver o aluno na sua “teia de relações” e “na perspectiva ampla do existir de cada um”, acabaram por construir um ser pensante. Olha só que coisa: na sala de aula onde estive me ensinaram a “pensar interpretando a realidade sem a preocupação com categorias de meios e fins”!

Que sala de aula é essa, afinal? Onde estive e onde estudei, você vai me perguntar. E eu respondo: na mesma que muitos que não tiraram dela, senão a idéia de que era “necessário” passar  por lá se quisesse ser de alguma valia para a sociedade. A diferença da “minha” sala de aula seja, talvez, como ela foi pensada e vivida “por mim”.

E voltamos a pensar nos filhos que imaginavam o tesouro enterrado no vinhedo, quando o “valor” estava em cultivar as uvas. E no quanto o ensino é para uns “infusão de idéias sobre as pessoas” ao invés de difusão de idéias, iniciativas, busca, aventura de pensar o conhecimento... e não esperar recebê-lo ponto e acabado. E aqui resgato o conceito de Paulo Freire de que aprender não é se fechar em respostas. Aprender é “liberdade” de pensamento, liberdade de buscar contradição entre o que se tem por certo e o que o outro diz certo, liberdade de resposta.

Antes de passar ao próximo conceito de sala de aula do autor, abro espaço para contar aqui, da adolescente tímida e insegura que chegou à escola com medo de atravessar aquela porta da temida “sala de aula”. Que já não era mais a escola primária onde se ensinava o alfabeto e as operações fundamentais da matemática. Era a temida “quinta série” lá pelo final da década de 70.

Já não era mais uma só professora. Eram oito! Com as mais diferentes tarefas e os mais diferentes pontos e conceitos. Era o MUNDO da ciência, da geografia, da história que se abria ali. E, pasme: da LITERATURA! Mal posso me conter ao lembrar do primeiro livrinho que, emocionada, li como que devorando as páginas. Ganymedes José; que me contava da vida sofrida (e aborrecida, reconheço hoje!), que vivia Bentinho sonhando e ajudando a mãe a vender doces; essa leitura me fez sonhar e “viajar” para além da sala de aula. E aquele livro foi o primeiro de muitos e minha “sala de aula” nunca teve “paredes”. E eu quis saber sempre mais. Não só de literatura, mas de ciência, de geografia, de história, da vida... A escola me abriu novas perspectivas  e novas situações. Ela me tirou do oco, do vazio e me deu o que pensar! A sala de aula era um espaço que eu ansiava por estar.

“Qual é o sentido deste evento que ocorre no espaço e no tempo?” Von Zuben faz aqui uma comparação a um “jogo de máscaras”, ao começo de uma longa aculturação patológica a que todos estamos sujeitos durante quase um terço de nossas vidas. Também pergunta se a sala de aula não seria um ambiente que nos violenta em nossa capacidade de pensar, nos impondo informações, doutrinas e idéias utilitaristas. Seria a inexorável dominação de uma geração sobre a outra? De uma classe sobre outra? De indivíduos sobre outros? Aprendizado de submissão ao poder político, religioso, ideológico, espaço de repressão? E quando todos estes sentimentos se mesclam, vem a “angústia do labirinto”. A de se pensar que qualquer caminho que se escolha, não vai levar a lugar algum. Que o labirinto em suas múltiplas escolhas não lhe dá a direção certa e nem a garantia de que não se vá acabar numa via sem saída. Ora, é no labirinto que aprendemos a conhecer nosso poder político, religioso, ideológico... !

E comparo este labirinto, essa angústia, ao “pré”, ao “antes” do saber proporcionado pela sala de aula. A sala de aula ideal é aquela que te dá o “horizonte dos possíveis” e te faz sair do “horizonte das realidades”.  Já não existem “paredes” que isolem o indivíduo em um só espaço quando ele adentra a uma destas salas de aula. Onde o professor não é um simples “disciplinador” que apresenta limites de toda ordem, onde a sociedade e a cultura o levam a carregar a pedra montanha acima e ao chegar lá a pedra rola de volta... A sala de aula proporciona a liberdade! A liberdade de escolha, a liberdade de buscar alternativas para empurrar de novo, reiniciar o processo e reconhecer as nossas limitações pelo tamanho daquela  pedra.

Sim, para esta adolescente tímida e insegura, a sala de aula sempre representou o “horizonte dos possíveis”. O lugar do “encontro”, da “discussão”, o amplo e irrestrito espaço para ser e fazer melhor... Ou, pelo menos, diferente, se não pudesse ficar melhor...

E agora, se eu fosse fazer uma citação do nono parágrafo do texto, eu o citaria INTEIRO! Não há como resumir todo o conceito de sala de aula exposto ali. Algumas palavras chaves podem até ser citadas: espaço revolucionário, revolução constante, pluralidade, novo conceito, diálogo, momento de liberdade... Mas, penso que uma frase sintetiza os conceitos e ao mesmo tempo abre espaço para muitas outras reflexões e pensares: “Antes da razão o desejo, a emoção”. Nada de receitas para se viver a vida. Nada de amarras ou imposição de limites a não ser aqueles que o próprio indivíduo descobre em sua busca por “saber” e agir, conforme este saber lhe dá os horizontes possíveis.  E nessa busca vem o princípio da alteridade, de que cada um é um e ao mesmo tempo depende do outro. Não há o desejo de individualismo, mas a construção de balizas para a ação de cada um no mundo, respeitando o espaço do outro, convivendo com o outro.

Para mudar o que a “máquina social” faz ao indivíduo nos dias atuais, ou seja, “castrá-lo em sua capacidade de pensar e agir”, penso que cada professor, na sua condição de mediador do conhecimento, deveria repensar seu “papel”. Deixar de lado os roteiros escritos e passar a pensar dialogicamente, re-elaborar o ensino, construindo o saber como “fundação da liberdade”, que cada possibilidade de caminho no labirinto possa levar à liberdade.

A sala de aula dos dias de hoje, que o autor descreve ao final, com certeza não é mais a mesma que recebeu a menina tímida e insegura; que a ensinou a pensar, a agir, construir. Não há mais diálogo, iniciativa, desejo ou paixão nesta sala de aula... Ou será que ela sempre foi a mesma e a menina é que é diferente?

Ângela Rocha

Referências:

* Publicado em obra coletiva:
MORAIS, Regis (org). Sala de Aula. Que espaço é esse? 10ª ed. Editora Papirus, Campinas.  Texto disponível em:
< http://www.fae.unicamp.br/vonzuben/salaaula.html>  Acesso em 26 de outubro de 2013.

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