sábado, 17 de setembro de 2016

COMO PRESERVAR SEU CASAMENTO...

Conselhos que dou a vocês depois de 30 anos de casamento... Mas, isto vale só para as “moças”... Cuidado lá, heim?

Este texto é de Ana Elisa Ribeiro, colunista do http://www.digestivocultural.com/ e achei bem interessante:

Aconselhamentos aos casais ― módulo I


“Trabalhei durante alguns anos em uma editora e tínhamos lá um excelente acervo de revistas antigas. Apesar do cheiro de papel velho e mofo que deixavam na sala, aquelas revistas eram nossa diversão nas horas vagas, nas pesquisas iconográficas e nos momentos de vagabundagem. A maior coleção era a de O Cruzeiro, especialmente os números de 1935. Copiei e guardei muitas matérias dessa época e tiro proveito delas até hoje.

E nesta onda de auto ajuda que temos hoje, vale lembrar os conselhos da seção (e aqui preserva-se a grafia original das palavras para nos atermos mais à importância dos conselhos) "conselhos ao esposo" e os "conselhos à esposa" contidos no número de 11 de maio de 1935, numa matéria intitulada "A difficil arte do Matrimonio", assinada como "chronica", de Luiz Raymundo. Em página dupla e ilustrada, o cronista (ou o narrador?) dá setenta conselhos à "jovem esposa" (note-se que é “à moça”) para que ela aumente as chances de "felicidade matrimonial", o peso fica sempre, ao menos nos conselhos de Raymundo, do lado da mulher. Diz o cronista que os aconselhamentos que se seguem não são "theoria". São retirados das "amargas lições da vida quotidiana"... sabe-se lá com que esposa.

A "chronica" começa com intertítulos que valem como máximas:

- A primeira logo despacha que "o marido vê o vestido de sua esposa, e, não, a alma". Assim fico mais tranquila. Se minha alma for horrorosa, visto nela uma bem-talhada blusinha e pronto, meu querido nem perceberá. Acho que, afinal, é assim que age muita gente sábia. Aconselha o cronista que eu "mude de vestido diariamente, se possível", porque nenhum marido merece ver a sua senhora com roupa repetida. Note-se, no entanto, o "se possível", que resguarda qualquer eventual falta de um bom guarda-roupa. Raymundo alerta que pequenas mudanças fazem já diferença: uma "golla nova, uma gravata, um collar"; e alerta: "nunca appareça a seu marido com um vestido que não ousaria exibir ás visitas". Foi neste ponto que me ferrei de vez. Meu Deus, aquele chinelinho de dedo, nunca mais! Vai ver que é isso o que causa tanto espanto nele. Minhas calças de ginástica, minha bermudinha desfiada (feita de calça velha cortada), minhas blusinhas de R$ 9,90. Assim não pode!

- Outro conselho de Luiz Raymundo: o marido não pode me ver de "rosto untado de creme ou com o nariz brilhante", nem de meias, a não ser que a costura esteja sempre "bem collocada" e bem puxada. Também não se pode escovar os dentes diante do cônjuge ou usar "chinellas sem salto". É preciso estar sempre "arranjada e 'coquette’, tanto faz se na hora do café ou noutra.

Fico pensando em minhas tantas falhas. Escovar os dentes é um problema, jamais me incomodei de cuspir na frente do meu marido, e o cabelo despenteado é quase uma instituição em minha família. Para mim isto sempre foi normal: Lavar e secar ao vento, de preferência sem se mostrar ao pente. A minha gene de cabelos pretos e cacheados, herança de papai, não aconselha arrumação que não seja com os dedos. Se bem que minha mãe não andava pela casa com a cabeleira desfiada. Muito ao contrário: estava sempre bem arrumada, com um arquinho, no mínimo. Diz Raymundo que "mulher despenteada provoca aversão do homem". Além disso, pede ele que a esposa seja sempre amável, ordem que finaliza a seção.

- No próximo intertítulo, já se pode imaginar o que vem: "Se a palavra é de prata o silêncio é de ouro". Alguém tem dúvida de que os conselhos serão dados às moças? "Não fale com seu marido senão quando elle terminar de barbear-se ou escovar os dentes". Nada sobre se ele os escova na minha frente, nada sobre se ele deixa a barba na pia para eu limpar. Apenas que eu espere que ele queira ouvir minha voz. "Para o homem, o vestir-se e barbear-se é como a celebração de um rito que a mulher não deve interromper". Relaxei depois dessa. Nem todo homem tem essas preocupações de vestir-se como um cavalheiro ou de barbear-se bem para poupar a mulher dos pinicamentos do toque de uma barba malfeita.

- Depois da manhã de silêncio, pede o cronista que a esposa: ponha a mesa do café de "maneira que o marido sente-se a ella com prazer", coloque o cinzeiro ao lado dos talheres e deixe-o ler o jornal em paz (sem interrupções). Quando fica aberta a temporada de falar (sempre pelo esposo), é preciso atentar para o fato de que a moça nunca tem razão nos assuntos: "de quando em vez procure provar-lhe que você estava sem razão". Assim pode ser que ele fique com a auto estima bem conservada. Além disso, é preciso equilibrar as coisas: "se seu esposo tem algum habito ou preferencia especial, procure satisfaze-lo sem insinuar que você assim procede por fazer-lhe a vontade". Ou seja: mesmo quando se pode conversar, é melhor adivinhar e não se deixar notar. "Não fale em demasia dos amigos delle, mas também não os esqueça", sutileza que ainda preciso aprender a fazer...

- Na seção "Aprenda a cozinhar", o que minha avó tentou me dizer e não conseguiu: "Não diga que só cozinha para elle e sim para ambos", que é um jeito mais conformado de não assumir a cozinheira que existe em mim. Ao mesmo tempo, Raymundo sugere: "Não prepare muito amiudadamente seus pratos favoritos", referindo-se aos dele, claro, já que não se pode enjoar o marido oferecendo sempre as mesmas comidinhas. Atualize-se, mulher, e lembre-se: "Não ande de chinellas, nem mesmo na cozinha". É só se lembrar das mulheres casadas de propaganda de margarina e seguir o modelo. A publicidade se utiliza destes manuais da década de 1930 até hoje. Não deve ser à-toa.

- Mais uma seção e mais conselhos. "O bom humor da esposa é um repouso para o marido". O que é uma esposa sem bom humor, não é mesmo? Ele quase não lhe dá motivos e você não faz outra coisa na vida, certo? Diz Luiz Raymundo que eu não me queixe nunca, de nada, que isso aborrece demais os homens. Pede o cronista que eu dê festas em casa apenas para marido e mulher, festinha privê, que é pra animar o moço. Não me pode faltar alegria, "seja sempre vinte e cinco por cento mais alegre do que dispõe de motivo para o ser", cálculo fácil de fazer e difícil de acertar, mas é preciso tentar. Raymundo me diz que dê presentes ao esposo, seja sempre moderada, discreta, não ultrapasse os limites quando me sentir atraída por discussões.

- Mais adiante, diz o cronista que "o homem pode tornar-se grosseiro e áspero; a mulher, não, pois isso a diminui em todos os sentidos". Admito: nem sempre consigo ser macia e gentil, mas vou tentar. Não se pode, igualmente, fazer cenas de ciúme, dizer de quantos "sacrifícios" fiz por ele e ficar doente. Assim reza a crônica: "trate de ficar doente o menos possível". Pode deixar, doutor, vou me controlar, afinal, preciso estar sempre bem para cuidar dos eventuais achaques dele.
- Melhores ainda são os conselhos sobre a vida social do casal. Raymundo afirma que cada um precisa ter seu dia de "mania", dia de sair só, de respirar. Ao menos uma vez por semana, o esposo deve "sentir-se como solteiro". E não se pode perguntar aonde ele foi ou o que andou fazendo. Diz o cronista que, se quiser, o marido chegará contando as experiências. E se houver qualquer deslize, que a esposa não se ressinta, nem cobre, nem se vingue. Isso é normal nos homens, não nelas. Não se pode sequer dar a entender ao marido que eu sinto ciúmes, coisa mais feia! E caso eu note que o homem está atraído por outra mulher, deixe estar, aproveito para reparar nela. "Observe, antes, o que é que elle nellas admira. Na maioria dos casos, são as qualidades que você não possue". Trate-se, então, de possuir. E ainda: "Chame a attenção delle para as virtudes das outras mulheres. Com isso, elle apreciará em você o senso de imparcialidade".

- A profissão e o tempo do marido são sagrados. Quando ele voltar à noite para casa, diz o manual, é preciso demonstrar que eu o estava esperando com impaciência. Preciso deixar tudo arrumado, inclusive eu, a mesa posta, o cinzeiro perto dos talheres e buscar o chinelo dele com o focinho. Não, não, misturei os manuais. Não é bem isso, excluam aí a última parte. Só devo telefonar (especialmente para mãe e amigas) quando ele não estiver em casa, óbvio, porque depois que ele chega, minha atenção é exclusiva. Devo me adiantar ao me arrumar para sair, assim não o deixo esperando; se ele já estiver a postos para sair, não vá eu encher a paciência com pequenas coisas, do tipo dar bitoquinhas nos filhos, procurar bolsa, instruir a faxineira ou procurar as chaves. Ou isso tudo estava feito ou babau. Ele certamente não o fará.

- Quando o marido, enfim, chegar do trabalho, não devo contar nada de aborrecimentos bestas para ele, um papo fútil e inútil, com o qual ele não ganhará nada. Ele, enfim, não quer ouvir minha voz nem de manhã cedo nem mais à tardinha. Ele quer mesmo é jantar e descansar. E se quiser sair? Não devo ter ideias sozinha. É preciso consultá-lo antes. Não devo nem aceitar sem propor nada antes que ele examine o assunto.

- Mas a esposa não fica totalmente desamparada nos conselhos de Raymundo. Ela também tem seu espaço, além daquele de se dedicar ao marido. Repare-se que os filhos quase não são citados, em um modelo de família bem diverso deste nosso mais atual, o "filharcado". A mulher também merece alguma dedicação. Afinal, na página 33, estão lá os conselhos ao rapaz, que só virão na próxima coluna.

Portanto, queridas amigas, não percam a oportunidade de ter um matrimônio feliz, de acordo com os aconselhamentos colhidos de um manual da década de 1930, mas, provavelmente ainda bastante atuais.”
É pra rir ou pra chorar??

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