domingo, 26 de junho de 2011

Encantar-se


... qualquer tipo de relacionamento começa aqui, no encantamento. Às vezes, a gente nem sequer lembra do momento exato em que aquela pessoa nos chamou a atenção. Mas sabemos que nosso coração começou a bater diferente. E guardamos na memória aquela etapa especial da nossa vida... Em que nos sentimos verdadeiramente encantados por aquela novidade.  E a nossa história muda. Porque encontramos, lá num dia banal, como outro qualquer, alguém que muda nossa vida. E aí começam, também, as mediações...

Tudo começa com uma experiência profunda de encantamento, uma intuição inquietante de que esse relacionamento é verdadeiro e apaixonante e que todos os pequenos gestos praticados, podem encher de sentido os nossos dias… Que as palavras ditas podem ser transformadas em prática diária… Que todas as histórias contadas podem ser testadas nas nossas relações e projetos pessoais…

A mediação pode ser feita por alguém que nos fala dessa pessoa com um brilho nos olhos, de um jeito muito especial. Dá testemunho dele como quem aprendeu o Evangelho da sua própria boca, anuncia-o como quem revela as confidências que descobriu numa profunda e secreta relação de amizade interior…

O nosso encantamento costuma começar por estes encontros, mediados por pessoas que já foram previamente iluminadas, que quando nos falam, nos fazem entender que estão completamente mergulhadas naquilo que dizem! Que acreditam e confiam! E é porque falam com experiência que despertam em nós aquela capacidade de nos deixar maravilhar e encantar. Coisa que, muitas vezes, encontrava-se já adormecido há muito tempo…

Quando acontece, parece que nos caíram as escamas que estavam em nossos olhos e aquele rosto ganha uma quantidade de contornos novos e sedutores que antes não tinha… Imediatamente, há como que uma intuição interior, um sexto sentido do Coração, que nos diz que um novo caminho vai se abrir…

Nesta primeira etapa de encantamento, no início dessa descoberta maravilhosa, desse novo Rosto e do quanto às coisas nos parecem novas, parece que redescobrimos o amor adolescente, quando na escola, o menino mais lindo nos deu atenção e a gente volta por todo o caminho de casa, sem deixar de pensar nele… E a vida parece adquirir outro gosto... E somos surpreendidos a cada instante pelo mistério desse novo sentimento, dessa nova descoberta.

O encantamento e a surpresa são os primeiros laços da sedução… E toda a revelação que se acolhe em nosso íntimo, faz nosso espírito rejubilar e nos faz intuir que a nossa vida só vai melhorar se nos deixarmos conquistar

Infelizmente, a maior parte das pessoas nunca passou pelo “encantamento”. Talvez por falta de mediações… também por falta de atenção e disponibilidade interior… O que é certo é que é uma pena, porque enquanto não deixarmos que essa pessoa especial cruze conosco de maneira a surpreender-nos, a fazer-nos parar maravilhados e a dar-nos vontade de lhe perguntarmos “Onde moras?!”, ainda não temos verdadeiros motivos para segui-lo!

Então, com muita facilidade, o que seria um aprendizado inestimável, se transforma em “letra morta” e aquele espírito novo num “anjo da guarda especializado” ao serviço dos nossos próprios projetos e tarefas.

Mas quando nos encantamos… Aí tudo muda! Quando temos o privilégio de encontrar mediações do Amor Inesperado e Imerecido de Deus por nós, então desabrocha no nosso íntimo, ao mesmo tempo, uma paz inexplicável e uma vontade enorme de continuar a desvelar os seus segredos…

Sim, porque é disso mesmo que se trata. De se fazer a experiência de penetrar nos segredos de Deus, que iluminam os segredos de nossa própria vida. E é encantador… permanentemente encantador!

E quando chegar a hora do “face-a-face”, então é que nos encantaremos de verdade, e viveremos eternamente admirados com a “medida sem medida” da Bondade de Deus para conosco! No princípio, a gente ainda não é capaz de dizer todas estas coisas … Mas a experiência do encanto é exatamente começar a penetrar nelas e a adivinhar a beleza que nos espera…

E esse encantar-se, nunca se faz sem que tenhamos “mediadores”. Sem que tenhamos aqueles que se “encantaram” antes de nós. O catequista é um mediador. Um agente do “encantar-se”!


Angela Rocha
*Adaptação do texto de Rui Santiago.

Nenhum comentário:

Postar um comentário