sexta-feira, 27 de julho de 2012

Eis o mistério da fé...


Aos dezoito anos eu não acreditava em Deus. Não havia em mim sabedoria ou compreensão para aceitar um pai que fazia sofrer seus filhos. Não podia entender porque os bons sofriam e os maus eram felizes. A diferenciação entre o bem e o mal me era totalmente particular. Ainda não havia chegado o momento de aceitar a vida como essa enorme “roleta” descrita por Rubens Alves: Viver é estar jogando essa roleta sem fim. A vida é um jogo, às vezes somos felizes, noutra amargamos derrotas e sofrimentos. Coisas da vida. Deus não nos quer sofredores. Ele nos ama e nos deu a maravilhosa opção da “escolha”.

Bem, se eu tivesse de novo dezoito anos responderia na lata: “Que escolha teve uma criança jogada na rua com fome e frio?” ou ainda, “Por que se morre vítima de bala perdida?” No último caso poderia conjecturar: “Escolheu o lugar errado para estar!”. No primeiro teria que remeter a culpa. Culpa por ter nascido de um ventre insensato. Mas a culpa não é hereditária. O castigo não passa de pai para filho.

Ao longo dessa minha vida, que já vai pra lá da metade, muita coisa aconteceu para provar que as coisas não são tão fáceis de serem colocadas na lógica do bem e do mal. Pratico o bem, devo ser recompensada com o bem. Pratico o mal, meu destino é o inferno. Mas o que é o bem e o que é o mal? Cada um pode ter a sua própria definição. Se cada ser humano escrevesse a sua, não haveria espaço suficiente em dicionário nenhum. Nem na Wikipédia com sua infinidade de gigabytes.

Tentei por muito tempo compreender a fé que move as pessoas. Falo da fé no divino, fé em Deus, não na fé que algumas pessoas têm em coisas mundanas como dinheiro e o time do coração. Acho que nunca pude compreender de verdade o: “Eis o mistério da fé!”. O acreditar sem ter visto. A aceitação passiva do sofrimento humano como uma determinação celestial para alcançar o reino dos céus.

Mas, depois que amadureci, a fé veio. Firme e forte. Assim...

Foram diversas e ao mesmo tempo nenhuma razão aparente. Só que aquele vazio que existia em mim, que buscava explicação para tudo, deixou de gritar por respostas. Elas não existem. Não existe razão para o sofrimento. Não existe razão para a fome. Não existe razão para o abandono. Não existe razão para o amor não correspondido. Nem para a doença ou para qualquer outra desgraça que nos faça chorar sem consolo.

É simples assim. Deus criou o mundo perfeito. Tudo funcionando direitinho. O céu azul infinito. A terra abundante de frutos e cada criatura com uma função. Nada havia que não tivesse sua razão de ser. Exceto o sofrimento e a dor. Isso quem criou foi o homem. A criatura a quem Deus também deu o poder de “criar”. E que preferiu criar coisas de que não precisava. Entre elas, a dor, o sofrimento, a amargura, a derrota, o desespero e a fome. 

Foi quando compreendi o mistério da Fé. Essa esperança quase que desesperada de não sofrer. Essa espera pelo afago e pela garantia de que tudo vai passar. Coisas que só os Pais podem fazer. Foi quando Deus me afagou com seu braço invisível e sussurrou, através da brisa, que tudo aquilo ia passar. E passou. Ainda posso sentir esse afago agora, nesse momento. Deixei de esperar por milagres. Agora eu os tenho todos os dias. Deixei de ver só as coisas ruins. Vejo muito mais as belas, aquelas criadas pelas mãos de Deus.
Deixei de ver a criança com fome e frio e passei a ver o milagre que são todas as pessoas que trabalham para reverter isso. Acredite. Elas existem. Aos milhares. Às vezes ouvimos falar de algumas: São Francisco, Madre Tereza, Irmã Dulce; outras vezes, as vemos naquelas cestas básicas que chegam todos os dias às nossas Igrejas por mãos anônimas. Deixei de ver as pessoas doentes e passei a ver as descobertas da ciência. Também passei a aceitar que Deus nos fez finitos. Todos têm que morrer um dia. Um dia o jogo acaba.

Deixei de olhar as mazelas do mundo e passei a ver a grama crescendo, a flor desabrochando, o riacho correndo, a criança brincando, independente do que acontece. Independente do que nós homens achamos disso. Então o mistério da fé não é acreditar sem ver, mas VER as inúmeras maneiras com que Deus se manifesta e, só assim, compreender as razões da nossa existência.

Ângela Rocha

2 comentários:

  1. Que lindo Angela!!! è palavras assim que nos ajudam a manter a esperança de esse mundo tem jeito.

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  2. Belo depoimento Angela. Ultimamente tem acontecido tanta maldade em minha comunidade, que meus catequizandos estão um pouco desacreditando da vida. Não posso deixá-los perder a esperança. Como vc disse "é preciso continuar a ver a grama crescendo, a flor desabrochando, o nascer do sol, o nascer e florescer da vida".Em Rm 12:2 está escrito: "Não nos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito"
    Abcs

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