quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Escreva-me uma carta por favor...



Campanha permanente pela carta de amor: mas, a carta escrita à mão, com local de origem, data, saudações, motivos, “despeço-me por aqui”, papel fininho e pautado, pelos Correios, portadores ou menino de recados.

Como canta o rei Roberto: “Escreva uma carta, meu amor, e diga alguma coisa, por favor,” e agora Beatles: “Ô, Mr. Postman!”. Tem também aquele do Waldick Soriano, nosso Johnny Cash baiano: “Amigo, por favor, leve essa carta/ e diga àquela ingrata/ como está meu coração…”

É minha campanha permanente pela volta da carta de amor, manifesto sempre repetido por mim. Chega de SMS e e-mails lacônicos e apressados.

Debruce a munheca sobre o papiro e faça da tinta da caneta o seu próprio sangue. Não tema a breguice, o romantismo, como já disse o velho Pessoa, travestido de Álvaro de Campos. “Todas as cartas de amor são ridículas, e não seriam de amor se ridículas não fossem”.

A carta, mesmo com todas as modernidades e invencionices, ainda é o melhor veículo para declarar-se, comunicar afinidades e iniciar um feitio de orações.

O que você está esperando? Vá ali à esquina, compre um belo papel e envelopes, e se devote. Se tiver alguma rusga, peça perdão por escrito, pois perdão por escrito vale como documento de cartório.

Se o namoro ainda não tiver começado, largue mão dessas cantadas baratas e internéticas e atire a garrafa aos mares. Uma boa carta de amor é irresistível. Mas não vale copiar aqueles modelos que vêm nos livros. Sele o envelope com a língua, como nas antigas, lamba os selos, esse pré-beijo dos lábios da futura amada.

De novo o clichê de Pessoa, para encorajá-los mais ainda: “As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas”. Às moças é consentido, além dos floreios e da caligrafia mais arrumadinha, a reprodução de um beijo, com batom bem vermelho, ao final, perto da assinatura.

Que os amigos, e não apenas os amantes, se correspondam, fazendo dos envelopes no fundo do baú as suas histórias de vida.

Pela volta da carta, que já é por si só uma maneira devota, um tempo que se tira, sem pressa, para dedicar-se a quem se gosta. Pela volta da carta, pois o que se diz numa carta é de outra natureza, é o bem-querer em tom solene.

O que você está esperando, meu amigo, minha amiga, largue esse cronista de lado e debruce-se sobre a escrivaninha. Uma mesa de bar ou de um café também são bons lugares para assentar as suas mal-traçadas linhas.

Lembrei-me agora de um começo clássico de missivas: “Venho por meio desta dar-te as minhas notícias e ao mesmo tempo saber das tuas”...

PS: Faço minhas as palavras de Xico Sá (o autor dessa missiva).

Um comentário:

  1. Oi, Ângela. Linda a crônica. Também gosto de escrever cartas. Que pena que caiu em desuso, a moda agora é escrever e-mail. Amei a citação de Pessoa. Bom dia, catequista amadora!

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