segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ENTREVISTA COM IR. ISRAEL NERY SOBRE O CONCÍLIO VATICANO II


Ângela Rocha: Irmão Nery, desejamos desde já começar a celebrar os 50 anos do Concílio Vaticano II, para isso estamos proporcionando aos nossos catequistas um estudo via web sobre o tema. Mas, afinal o que é um Concílio?

Irmão Nery: Querida Ângela, parabéns pelo Curso sobre o Concílio Vaticano II, é uma alegria para mim, tratar deste tema. Eu estava estudando em Roma de 1961 a 1964, na Universidade Lateranense, portanto, acompanhei de perto quase todo daquele evento histórico. Mas para poder falar de Concílio é preciso entender alguma coisa sobre Cristianismo, Catolicismo e da Igreja e sua organização.

Ângela Rocha: Então, vamos conversar um pouco sobre Cristianismo.

Irmão Nery: Os que acolhem, pelo dom da fé, Jesus Cristo, como verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, e vivem com ele, por ele, nele, na união com as demais pessoas que também fazem esta opção de vida, e cooperando com Jesus para tornar este mundo fraterno, solidário, justo e em paz, são denominados cristãos. A primeira denominação dessas pessoas foi “os que seguem o Caminho”, porque diziam que seguiam Jesus Caminho, Verdade e Vida, e que trilhavam um itinerário de vida pessoal e comunitária, para viver como Jesus viveu e fazer o bem aos outros como ele o fez. A primeira vez que receberam a denominação de cristãos foi na cidade de Antioquia. Todos os cristãos formam um povo universal, sem fronteira de país, etnia, sexo, cultura, grupos, denominações, etc. Hoje há mais de dois milhões e meio de cristãos entre os quase sete milhões de habitantes no mundo.

Ângela Rocha: E o quem vem a ser Igreja?

Irmão Nery: É uma adaptação ou inculturação da expressão hebraica “Qahal Yaweh” (Assembléia do povo convocada por Deus para ouvi-lo a partir das Escrituras Sagradas; cultuá-lo - por meio de orações, cânticos, holocaustos e sacrifícios; e recomendações de como viver segundo as orientações do Senhor). Os Apóstolos e os primeiros convertidos ao seguimento de Jesus, ao passarem do mundo judeu para o mundo grego encontraram algo parecido, mas no sentido puramente civil. Havia o KERUX (anunciador) que passava pelas ruas convocando o povo para a grande EKKLESÍA (Assembléia do povo), numa determinada praça. Quando o povo ali se congregava o mesmo KERUX (anunciador) falava em nome do Imperador ou do General ou de qualquer Autoridade (se esta não estivesse presente para falar). Ele dava o recado, a mensagem e o termo usado é KERIGMA. O que fizeram os cristãos? Adaptaram para si e enriqueceram estes termos e realidades do costume grego. Passaram a se considerar como “Ekkesía, ecclesia, Igreja” (povo permanentemente congregado por Deus e para Deus. Não importava onde cada um estivesse, pela fé se fazia parte deste Povo, pertencia-se ao povo). Os cristãos já possuíam momentos especiais de congraçamento, reunião, em estilo de assembléia (também ekklesía) para ler e meditar os textos bíblicos, cantar, partilhar o pão, receber a missão... Esta assembléia litúrgica aos poucos foi se aperfeiçoando e tem seu melhor modelo na celebração eucarística.

Ângela Rocha: Nossa! Que síntese histórica importante! Garanto que muita gente não sabe nada disso. Mesmo assim, há diferença entre Cristianismo e Igreja, já que você falou que os cristãos formam um povo universal?   

Irmão Nery. Sim, há. Na verdade nem deveria haver. Digamos que cristianismo é a Religião Cristã, centrada em Jesus Cristo, que nos conduz, pelo Espírito Santo, à glória de Deus Pai, que é nossa vida como filhos dele e entre nós, como irmãos, na construção de um mundo segundo o seu coração de Pai. Quem assume viver esta religião é, portanto, cristão. Mas como somos humanos precisamos organizar estes seguidores de Jesus, estes cristãos. A Religião Cristã, ao longo destes 2.000 anos de existência, foi se organizando em muitos grupos que se auto denominam de Igreja (Ekklesía), outros de “Comunidade”, outros de “Assembléia”. Algumas usam como característica o termo “Igreja universal”. Ora, o termo grego Kathólikos (católico) significa exatamente universal, sem fronteiras. Os cristãos que se consideram diretamente na linha sucessória de São Paulo, chefe primeiro dos seguidores de Jesus, se denominam Católicos (sem fronteiras, nem discriminações). Deste tronco marcado pela sucessão por parte da linha dos sucessores de Pedro e dos Apóstolos (Papa e Bispos) houve grupos que, por motivos históricos específicos na época, romperam e criaram outro tipo de sucessão, formaram outro modo de organizar a Igreja. Isso aconteceu deste o primeiro século depois de Jesus Cristo.

Ângela Rocha: Poderia dar alguns exemplos?

Irmão Nery: Pois não. Houve um sacerdote, chamado Ario, que criou uma corrente cristã denominada “arianismo”, com uma série de interpretações da fé e práticas cristãs que destoavam dos demais cristãos do mundo, é um deles. Outro é o bispo Miguel Cerulário, (no ano 1024), depois de muita polêmica, decidiu romper com o Papa, dizendo que os grupos cristãos do oriente, tinham os sucessores dos Apóstolos, denominados Patriarcas, em cidades históricas do cristianismo como Jerusalém, Antioquia, Bizâncio. Ao mesmo tempo ele cunha o termo “Ortodoxa” (doutrina correta), pois afirma que eles, sim, estão com a doutrina correta. Mais tarde ainda, no século XVI, o padre Marinho Lutero se separou da Igreja Católica e deu origem às denominações “Igreja Protestante” (porque Padre Lutero protestou publicamente a respeito de como líderes da Igreja se comportavam e ensinavam). Mais tarde houve mais líderes que se separaram da Igreja Católica e fundaram outras Igrejas. E nestes dois últimos séculos, a proliferação continua e de modo acelerado. Há algumas que fazem questão de serem chamadas “Universal”, “Mundial”. As divergências são muitas, mas a fé básica na Santíssima Trindade, em Jesus Cristo, é a mesma. As divergências correm por conta de interpretações diferentes e contrastantes entre as diferentes igrejas sobre a Bíblia, sobre o próprio Jesus e seus ensinamentos, sobre os sacramentos - especialmente a Eucaristia -, sobre Liturgia, sobre os sucessores dos Apóstolos, etc.

Ângela Rocha: E o que tem a ver Concílio, com toda esta sua explicação?    

Irmão Nery: A Igreja Católica, Apostólica, Romana (com sede mundial em Roma), por causa da sucessão de São Pedro, na pessoa do papa, sempre que algum ensinamento errôneo sobre a Sagrada Escritura ou sobre Doutrinas comumente aceitas e vividas pela Igreja, aparecem, convoca uma “assembléia especial para estudar, dialogar, elaborar a doutrina correta, condenar quem estava errado e confirmar quem estava no caminho certo”. Para esta “assembléia especial” (Concílio, termo que vem do latim “reunião para se chegar a um consenso, após sério estudo e diálogo”.), o Papa ou os Bispos convidavam bispos (sucessores dos demais apóstolos), biblistas (especialistas no estudo da Bíblia) e teólogos (especialistas no estudo de assuntos da Igreja e da vida do mundo à luz da Bíblia e dos ensinamentos da Igreja). Até agora a Igreja Católica, Apostólica Romana celebrou 21 Concílios Ecumênicos, além de muitos outros regionais e locais. O termo ecumênico vem de (oikòs = casa; Menem = todos, portanto, “casa de todos”) e foi adaptado para significar espaço para todos, sem distinção, que buscam a unidade da Igreja segundo a Oração de Jesus, no capítulo 17 do Evangelho segundo São João “Pai, que todos sejam um como nós somos um e o mundo creia que tu me enviaste” (cf. Jo 17, 20-23). Quase todos os Concílios foram convocados para tratar de assuntos polêmicos ou de lideranças polêmicas. A Igreja concluía, depois de relatar as conclusões do Concílio, a serem aceitas na fé e na obediência cristã, por todos, sempre com a seguinte expressão: “Quem não aceitar o que aqui foi decidido, considere-se excluído da Igreja ou seja excluído da Igreja”. A expressão síntese do Concílio, sempre em latim, língua oficial da Igreja ficou fixada com estas palavras “Anátema sit” (seja considerado condenado, portanto, expulso da Igreja).

Ângela Rocha: E o 21º Concílio, denominado Concilio Vaticano II (porque aconteceu o primeiro em 1870), que também foi dentro da cidade do Vaticano, foi convocado por causa de algum erro, alguma heresia, algum problema especial a ser condenado?

Irmão Nery: O 21º. Concílio Ecumênico Vaticano II, foi anunciado em 25 de janeiro de 1959, pelo Papa João XXIII (que antes se chamava Cardeal Ângelo Roncalli), eleito Papa em 28 de outubro de 1958, sucedendo ao Papa Pio XII. O motivo era, na expressão italiana usada pelo próprio Papa “aggiornare la Chiesa”, isto é, trazer a Igreja para o mundo de hoje, adaptá-la, inseri-la na atualidade. Não se tratava de condenar erro algum, se bem que algumas lideranças queriam um “anátema sit” para o comunismo e os comunistas. Mas o Papa, apelidado de Papa da Bondade, não queria condenação alguma, mas uma Igreja mais fiel a Jesus e ao mundo de hoje.
Depois de enfrentar sérias resistências, João XXIII, enfim, anunciou o Concílio no dia de Pentecostes (17 de maio de 1959), organizou grupos de trabalho e abriu o Concílio Vaticano II, na Basílica de São Pedro, no dia 11 de outubro de 1962, com mais de 2000 participantes, eleitos nos diversos países (entre bispos, biblistas, historiadores e teólogos). Eu tive a graça especial de estar lá na Praça de São Pedro, vendo aquela imensa multidão de “padres e peritos conciliares” em procissão, passando pelo meio do povo. Depois lá da janela dos aposentos do Papa, aconteceu uma memorável saudação do Papa a todo o mundo, para sintonizar a todos com aquele grande evento.
 No final da primeira sessão foi preciso tomar a decisão de mais sessões, de modo que o Concílio durou até 1964 (o encerramento aconteceu no dia 8 de dezembro de 1965). Os participantes levaram muito trabalho para casa e compareciam a Roma, para longas sessões de trabalho e busca de consenso.
João XXIII faleceu pouco depois, mas o seu sucessor o Papa Paulo VI (Cardeal Giovanni Battista Montini), eleito em junho de 1963, deu continuidade ao Concílio e liderou sua colocação em prática depois de 1964. Foram três anos de uma enorme sacudidela na estrutura milenar e bastante fixa da Igreja. E, no fim, mesmo com muitos assuntos ainda pendentes, o saldo de tudo foi maravilhoso e apontava para grandes renovações no mundo católico, plasmadas em seus documentos, mas, sobretudo, no espírito de “aggiornamento” (renovação, adaptação, inculturação) da nossa Igreja, na fidelidade às suas origens - em Jesus Cristo e nos primeiros tempos do cristianismo – e ciosa em estar à altura dos tempos contemporâneos. 

Ângela Rocha: Muito obrigado, Ir. Nery, por esta maravilhosa explanação sobre o assunto. Tenho certeza que será extremamente proveitoso aos catequistas do curso.


Ir. Nery: O prazer é meu em colaborar com essa iniciativa. Um imenso abraço a todos.


* Irmão Israel José Nery fsc, de Machado, MG, formado em Filosofia e Teologia, com concentração em Catequética e Vida Consagrada, é membro do Instituto dos Irmãos de La Salle, escritor com 58 livros publicados, conferencista, membro do GRECAT/CNBB e de SCALA (Sociedade de Catequetas Latino-americanos). 

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