segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Histórias do ponto de ônibus

Logo que cheguei ao ponto de ônibus, percebi que havia um coco (se acentua ou não isso?) de pombo bem no meio do banco. Afastei-me para um cantinho e sentei. E pus-me a observar os arredores.

Percebi que vinha apressada, subindo a rua, uma senhora de cabelos brancos com uma folha de papel nas mãos. Ela chegou ao ponto, olhou e arrumou o papel no banco. Mas sentou-se ao lado dele e não encima. E reclamou comigo da sujeira dos pássaros. Eu concordei que de fato, era um incômodo. Fiquei pensando comigo pra que aquele papel...
Logo vi que vinha subindo a rua uma outra senhora, desta vez não tão apressada. Com passos muito lentos e apoiando-se numa bengala. Logo que chegou ao ponto foi logo reclamando com a outra:
- Irani, você não arrumou direito o papel! Desdobre isso, assim não consigo me sentar.
- É que tem uma titica de passarinho aqui do lado.
- Titica de passarinho... Bem feito! Você devia ter sentado encima, Irani, que seria bem merecido, pois vale menos que uma titica. - E foi se assentando e reclamando das dores. Assim que se acomodou  me perguntou se o ônibus demoraria. Eu respondi que não sabia. Mas ela, pelo jeito, sabia sim:
- Que horas são? Vai passar logo. Daqui uns 5 a 10 minutos. - Ficou um pouco em silêncio e logo começou a contar que tinha feito uma cirurgia no joelho e que por isso estava com dificuldades para andar... E o quanto era difícil ser velha. Logo interrompeu, apavorada:
- Irani! Esqueci de tomar o chá! Você desligou o fogão?
- Desliguei. A senhora me mandou desligar.
- Não senhora! Não mandei não. Mandei você esquentar pra eu tomar. Irani, você não desligou o chá!
- Eu desliguei sim!
 - Olha lá hem! Não vi você desligar nada.
- Mas eu desliguei...
Logo a senhora da bengala voltou seu interesse para mim e afirmou novamente que o ônibus não ia demorar. Nisso, a Irani fez uma nova intervenção:
- Será que desliguei mesmo o chá?
- Ah, Irani! Você vai por fogo na minha casa! Vai queimar todos os meus documentos. E a geladeira que comprei não tem nem um mês?
- Por que a senhora não vai lá ver? - pergunta a Irani.
- Porque andando desse jeito vou levar um ano. E agora? O ônibus já vai chegar...
- Mas acho que desliguei sim.
- Acha, acha... Vai correndo lá ver, sua inútil! E logo porque vamos perder o ônibus!
E Irani pôs-se, apressadamente, a caminho.
- Ah Meu Deus! Ela vai me fazer perder o ônibus. Até destrancar o portão, destrancar a porta...
 Não resisti e intervi:
- Sua casa é longe?
- Não, não... é aquela ali de muro amarelo, dobrando a esquina você vê um pedacinho dela daqui. Mas a Irani é um monte! Não vai dar tempo. Já, já chega o ônibus.
- Ela é sua irmã? - Perguntei.
- Não. É minha filha. Olha lá. O ônibus vem vindo! E nada da monte... Perdi! Mas você pode ir minha filha, vou ali na rua de cima pegar o outro.
- Tá... Um bom-dia pra senhora.
E com o devido "consentimento" da mãe da Irani, entrei no ônibus em direção ao centro...


Ângela Rocha

"Comunicar-se com os outros é dizer as palavras que o amor escolhe."

Um comentário:

  1. Vc é tão observadora qto eu... Adoro estas histórias presenciadas bem de perto. No caso aí vc não só presenciou como tb participou. Adorei...
    Abcs

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