sexta-feira, 11 de novembro de 2011

UM TIRO NO PÉ...


Este é um post longo... então, paciência aí minha gente!

Com certeza vocês já ouviram a expressão “tiro no pé”. Pois bem, “atirar no próprio pé” tem algo a ver com tentar acertar a caça e mirar em si mesmo. Ou seja, ter uma boa intenção, no caso prover alimento a sua mesa, e acabar tendo que correr fazer um curativo para sanar uma ferida.

E é isso que tenho feito em minhas navegações pela net (nem sempre atirando no pé): busco alimento para o conhecimento, tanto na minha vida pessoal quanto nas minhas atividades na Igreja, incluindo aí, a formação dos catequistas que acessam meu blog e o de catequese da CNBB. Claro que às vezes me deparo com um “orlando fedeli” da vida que, graças a Deus, morreu e não pode mais continuar falando besteira. Aliás, se fosse possível botar fogo em arquivos da internet eu botava na Associação Monfort. A TFP para mim causa ânsias de vômito. Mas sobre isso falo numa outra hora...

E fico muito triste, de verdade, quando me deparo com coisas tão boas, tão legais, renovadoras mesmo, como o blog O Catequista e lá no meio tenho que ler um post absolutamente tendencioso como o que fala da Teologia da Libertação... Pior ainda ler um comentário onde a CNBB é descrita como “cátedra de comunas”. Nem sei bem se a pessoa que disse isso sabe bem onde mora... Brasil, meu filho! América latina, terceiro mundo! Que não é só a praia de Copacabana e conversa em boteco. Basta olhar o morro que é o cartão postal da cidade...

Concordo que a Teologia da Libertação, de certo modo, deturpa um pouco da doutrina católica - nunca da cristã, veja bem - e a Santa Sé tem seus motivos pra criticá-la. João Paulo II fez boas críticas a ela, até apoiou no princípio. Só que as coisas tomaram rumos prejudiciais quando ela se tornou uma teologia quase de “fanatismo” para alguns religiosos. Sem contar que o papa veio de um país dominado pelo comunismo que foi uma coisa nefasta para o povo da Europa oriental. O marxismo foi utilizado desvirtuadamente como base para as doutrinas oficiais utilizadas nos países socialistas. As sociedades pós-revolucionárias, meio perdidas e com poder na mão, acabaram cometendo os mesmos erros do passado. E acredito que a maior parte das críticas à TL vem das bases pretensamente marxistas. O marxismo é ateu e prega a religião como alienação das massas, então, nada mais natural que condenar um movimento que vai contra a fé da igreja.

Outra coisa é a palavra “comunismo” que se associa a TL.

Só para elucidar a afirmação que fiz acima de que a TL não deturpa a doutrina cristã em sua visão “comunista”, gostaria de explicar com um trecho dos Atos dos Apóstolos, 2, 44-47: Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um.  Unidos de coração freqüentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação.

Bem, por aí então a gente pode até dizer que o “comunismo” nasceu na Bíblia... Jesus pregava o “comunismo”.  Ele pregava a fraternidade e a justiça. Veio para libertar os excluídos, para tirar as pessoas do pecado, da doença e, porque não, da alienação.

Muita gente – leia-se católicos - pregam a fraternidade passando por cima do mendigo dormindo nas calçadas. E não estou falando de ricos não. Estou falando do pobre emergente, classe média e afins; a quem não ia doer repartir um pão e um copo de café. É fácil falar com barriguinha cheia, emprego, roupinha confortável, um carrinho na garagem (pode até ser financiado), teto sobre a cabeça (mesmo de aluguel)... E ficar arrotando catolicismo até pelas orelhas. Aí, todo mendigo é vagabundo e bêbado, senão drogado, e todo sem-terra é marginal. Sem contar que as CEBs são “reunião de sindicato”. Esquece-se que elas são responsáveis pela liturgia e pela difusão do evangelho em muitos lugares onde não tem padre e muito menos igreja. E como as CEBs são fruto da teologia da Libertação, vamos malhar! São todos comunistas!

Só que, querer voltar no tempo e manter um discurso retrógrado é nocivo para a religião como um todo. Falar de uma "fé pura" é dar lado para a alienação social e querer que os católicos voltem a ser como os camponeses da idade média. Tem gente que senta a mesa e come carne, tem gente que fica debaixo da mesa e come os ossos... E conforme-se. Reze que o céu é teu.

Não podemos mais viver esta realidade.

O que acontece hoje em dia é que ficou praticamente insustentável ser dogmático, religiosamente falando, sem ser ignorante. Eu penso que os avanços científicos, tecnológicos e sociais, somente provam a perfeição e a pureza da criação divina. E aqui eu lembro uma frase do CIC: “o homem é capaz de Deus”, e eu complemento, mas não é Deus para julgar tudo a ferro e fogo.

Eu penso que as várias correntes de pensamento, ideologias e doutrinas que vieram ao longo da nossa história colaboraram para que o mundo fosse o que é hoje (E aí, dependendo da sua cabeça, ele pode ser uma merda ou um paraíso). Mas falando de correntes teológicas, acredito que a TL mais contribuiu do que prejudicou a Igreja. Assim como o marxismo ou comunismo que, sem o saber e até renegando a Deus, tenta colocar em prática a máxima da igualdade para todos.

Mas este pensamento só acontece com quem se abre a uma reformulação de idéias - que são aquelas pessoas que acreditam que a Igreja, por mais sagrada que seja, é uma instituição humana e administrada por humanos. Portanto, não é Deus, nem fala por ele. Essas pessoas acreditam na reforma, mesmo que moderada, na adaptação, na modernização do discurso, enfim - é quem pensa racionalmente além de religiosamente.

Não podemos confundir a atemporalidade da fé em Deus e no Cristianismo com uma Igreja que é, portanto, temporal, inscrita no seu tempo e na sua realidade social. Se não fosse assim estaríamos ainda, vendendo indulgências, sendo queimados em fogueiras e rezando em latim.

E eu só faço um pedido, principalmente a quem está lendo isso e, de alguma forma, é responsável pela evangelização em nossa Igreja. Não vá acreditando assim em tudo que lê por aí (até mesmo em mim). Pratique a liberdade de escolha e julgamento. Leia a opinião contrária, informe-se. Nossa Igreja tem uma história linda e rica, mas feia e pobre em algumas ocasiões, assim como nossa sociedade, nossa política...

Discernimento é a palavra.

Então vamos tirando o que de bom se pode tirar de cada coisa. Vamos aprender com os erros e aproveitar da internet aquilo que ACRESCENTA a nossa catolicidade e religiosidade. Visões retrógradas e preconceituosas só nos fazem ficar cada vez mais longe da realidade do nosso tempo.


4 comentários:

  1. Parabéns Ângela pelo artigo. Em tudo que lemos ou ouvimos, realmente devemos filtrar o que vai nos ajudar na evangelização e descartar aquelas que não nos acrescenta nada. A TL, ao meu ver, prega o que Jesus pregava: busca pela justiça, igualdade, liberdade, partilha, caridade, solidaridade, etc. E, eu como catequista, tento passar isso para os catequisandos. Então eu sou uma catequista comunista? Ai, que bom! Admiro Dom Helder Câmara, Frei Beto, Leonardo Boff, Dom Pedro Casaldáliga. Nossa! Vou para o inferno por isso? ah! O mais importante: ADMIRO JESUS CRISTO!
    Abraço fraterno,
    Glícia

    ResponderExcluir
  2. Pois é minha amiga... mas como já te respondi antes, não adianta a gente ficar discutindo com quem não admite que não sabe tudo... Vamos desejar a Paz!

    ResponderExcluir
  3. Bom, como eu já te disse, ainda bem que tem vocês por aí pra salvar a barca, porque se dependesse dos reacionários cristãos, a nau já tinha afundado.

    ResponderExcluir
  4. Os sabotadores são poucos perto do povo bom que tem por aqui, fique tranquilo!

    ResponderExcluir